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O que é pleno emprego e porque isso não existe no Brasil

Escrito por

Luiz Philippe de Orleans e Bragança

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Medir o quanto se trabalha é tão importante que os economistas passaram a acompanhar os índices de emprego atentamente. Até criaram índices para medirem quanto há de desemprego e quantos postos de trabalho faltam para atingir o pleno emprego. Funciona assim: quando a oferta de empregos é igual a demanda temos equilíbrio e pleno emprego. Quando a oferta de empregos é inferior a demanda temos desemprego. E quando a oferta de empregos é superior a demanda? Temos um “boom empregatício” em que empregadores competem por mão de obra aumentando salários e proporcionando mais opções de trabalho e ganhos salarias reais ao trabalhador mercado de trabalho. Raro ver isso no Brasil não é mesmo? Eis um breve ensaio do porquê.

O que é pleno emprego

No modelo norte americano o pleno emprego é atingido naturalmente, por forças de oferta e demanda do mercado de trabalho. Ou seja, trabalhadores e empregadores acordam entre si livremente as melhores condições para ambos. Quem paga bem e dá benefícios atrai os melhores, quem paga menos contrata os menos experientes. Não há garantias asseguradas em lei. Isso por alguns é percebido como sendo ruim, mas na verdade não é.

Pelo trabalho não ser regulamentado, há menos risco para o empregador de empregar. Há mais flexibilidade de renegociar acordos para manter empregos quando a economia não vai bem. E quando a economia vai bem o que acontece é que as ofertas de trabalho aumentam exponencialmente pois os empregadores arriscam mais. Com a ampla oferta de trabalho, em vários níveis salariais e condições de trabalho variadas, numa situação econômica favorável, o que acaba acontecendo com certa frequência é que pode ocorrer BOOMS de oferta de emprego. Ou seja, o mercado de trabalho começa a demandar mais mão de obra a além da oferta de mão de obra.

Nos Estados Unidos de 1998 a 2000 depois entre 2003 e 2005, eu e outros colegas de universidades nos EUA vivemos os efeitos positivos desses BOOMS. Toda semana havia headhunters, profissionais contratados por empresas para buscar talentos, com ofertas para alguma vaga de emprego, cada um com uma oferta melhor que o outro. Num desses episódios me lembro de algum headhunter me dizer que mesmo que os EUA aceitem 2 milhões de imigrantes trabalhadores anualmente, havia emprego para pelo menos o dobro dessa quantidade!

Mais de dez anos depois do último boom, e também depois de uma grave crise financeira, os Estados Unidos convivem novamente com um mercado de trabalho aquecido. Como mostra o gráfico abaixo, o desemprego caiu para menos de 5% pela primeira vez em dez anos. Foi a terceira vez que isso aconteceu em menos de 20 anos.

Queda na taxa de desemprego nos Estados Unidos
Queda na taxa de desemprego nos Estados Unidos

E no Brasil? Atingir a situação de pleno emprego por aqui é complicado, pois o mercado de trabalho ainda é muito regulado – mesmo depois dessa tentativa de reforma da CLT. O modelo para atingir o pleno emprego no caso brasileiro é mais através de intervenção do Estado, (i.e., de gastos do governo em infraestrutura, inchaço da administração pública) do que por forças de oferta e demanda naturais de um verdadeiro mercado. Isso ocorre, pois, a livre iniciativa é regulada e as leis trabalhistas desestimulam empregadores a criar novos postos de trabalho.

Mesmo se houver recuperação econômica no Brasil, pequenos empresários, os maiores criadores de postos de trabalho, vão hesitar em contratar pois os riscos de ter que voltar a demitir se a recuperação não for de fato duradoura é muito grande. As condições impostas por lei, como multas de rescisão, tornam novas contratações em riscos para todo o negócio da pequena empresa. Acrescente a isso para um governo populista que prometeu demais. Só através de empregos gerados no setor público ou através de acordos com sindicatos e grandes empresas que parcelas da classe trabalhadora obtém ganhos, e esses ganhos são na verdade irreais, são ganhos legislados, por decreto, ou negociados. Eles são, portanto, insustentáveis.

Chegar ao pleno emprego no Brasil é uma questão de política de Estado e não de mercado, o que torna essa possibilidade mais distante e preocupante, pois as politicas de governo que forem adotadas para certamente demandarão algum ajuste futuro. Economias planejadas centralmente pelo governo não são eficientes em gerar boas condições para o mercado de trabalho, muito pelo contrário.

Agora vocês me perguntam: Luiz, se atingir o pleno emprego no Brasil já é difícil, será possível chegarmos ao boom empregatício?

Se acertar na mosca já é improvável, imaginem no olho dela.

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