Artigo

Qual o futuro dos Movimentos Liberais e Conservadores?

Escrito por

Luiz Philippe de Orleans e Bragança

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Cenário político que envolve a base popular e parlamentar do governo é oportunidade para novas lideranças nas próximas eleições

A primeira questão que tem sido levantada nos diversos grupos é se o governo Bolsonaro tem mudado sua base de apoio parlamentar, A resposta é sim. Antes firmado em amplo apoio da população e dos deputados conservadores, Jair Bolsonaro agora busca amplo diálogo com diversos partidos, sobretudo o do chamado “centrão”. Diante de um cenário de crise institucional, não faz sentido que ele dependa politicamente de apenas 10% dos deputados na Câmara, pois para garantir governabilidade, o presidente não conta com ampla maioria, como sempre acontece no sistema de voto proporcional. Mesmo na era PT, que teve a maior base de apoio nos últimos 40 anos, apenas 90 dos 513 deputados estavam a favor do executivo. A governabilidade é sempre um problema de dinâmica do próprio sistema e independentemente do presidente em exercício, sempre haverá potencial conspiração.

Cenário dúbio – Diante da perspectiva de aproximação do presidente com parlamentares de outros partidos, a população pode se preocupar com a volta de um status quo de corrupção e mesmo se frustrar, mas é necessário entender o risco até mesmo de perda de mandato por meio de um impeachment que poderia ser pautado e que, ao que parece, está momentaneamente afastado. Esse foi um dos pontos positivos no fim da queda-de-braço que se configurou com a aproximação com o “centrão”. Outros foram as medidas provisórias que até há dois meses estavam paradas e começaram a ser pautadas e votadas, bem como a agenda do executivo para a Economia, que corre lateralmente às pautas ideológicas, mais polêmicas. Há muita probabilidade de aprovação de reformas tributárias e mesmo administrativas, consideradas paralelas ao discurso presidencial. Por outro lado, o ponto negativo é que o risco de volta da corrupção e a eventual quebra de promessas de campanha decorrentes da aproximação com a oposição pode redirecionar parte da base popular para busca de outras lideranças.

Entretanto, tal aproximação tem um limite, pois é pouco provável que os deputados do “centrão” abracem em plenitude reformas estruturais e se disponham a eliminar burocracia e excesso de regulamentação, por exemplo, pois ambas garantem poder e privilégios para agências reguladoras, bem como um programa necessário de privatizações. Também em virtude de uma mentalidade fisiológica e enraizada no atual modelo, dificilmente tais deputados aprovariam uma reforma política ampla, com voto distrital, recall de mandato e sem fundo eleitoral e partidário. Nenhum deles está disposto a abrir mão de recursos para promover churrascos, imprimir santinhos, pagar cabos eleitorais e distribuir recursos para propaganda. Esse é o modelo que elege a maioria dos deputados do “centrão”. O grande risco é que o governo sucumba à agenda desses parlamentares, que estes, enraizados no poder executivo, criem  uma alavanca para suas próprias agendas.

Base Plural e Fragmentada – O apoio popular do governo Bolsonaro está segmentado e é necessário entender sua extensão e perfil, com maior ou menor adesão, gradativamente:

  • Bolsonaristas – Apoio irrestrito à pessoa de Jair Bolsonaro, independentemente de seus acertos e erros. Sempre irão defendê-lo;
  • Conservadores em geral – Acreditam no que representa o presidente Jair Bolsonaro e compõem a chamada Direita: Olavistas, Monarquistas (a maior parte), Militaristas, e Intervencionistas;
  • Liberais – Mais distantes dos conservadores, também fazem parte da Direita e veem Bolsonaro como alavanca de liberalização da Economia;
  • Lava-jatistas – Não têm uma ideologia econômica ou moral definida, nem mesmo uma visão política desenvolvida, mas acreditam na Justiça, na Lei e na Ordem e desejam acabar com a corrupção do sistema.

Estes dois últimos segmentos, Liberais e Lava-jatistas, são provavelmente os que não toleram as medidas de sobrevivência e sejam a base perdida para o governo Bolsonaro. Devem buscar outra alternativa, provavelmente uma solução utópica que ainda não se apresentou.

Os Bolsonaristas devem continuar leais ao presidente; os conservadores que o apoiam também seguirão alinhados, mas tecendo críticas pontuais, o que é saudável, porque considerando o grau de conspiração a que está sujeito Jair Bolsonaro, este ainda é a melhor opção, uma vez que também está respaldado pelas Forças Armadas, uma oligarquia fundamental e permanente do Estado brasileiro. Fosse outro presidente igualmente conservador nesse jogo de poder, mas sem o apoio das forças de segurança, não teria sobrevivido às investidas do Congresso e agora do STF. Portanto, ele ainda representa a melhor opção para os conservadores em termos políticos.

Essa situação certamente deve gerar desgaste e mesmo algum abalo na base do presidente, mas ao olhar para o futuro em perspectiva, estabelece uma oportunidade para que os movimentos conservadores ganhem fôlego, força e firmeza em seus valores, mais profundidade em suas ideias e principalmente surjam novas lideranças. No melhor dos casos, temos de aproveitar as lacunas ideológicas para ocupar os espaços de forma propositiva. Brevemente teremos eleições e devem despontar novas cabeças em âmbito local que reflitam o pensamento conservador, nossa maior necessidade neste momento.

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